É comum aqueles que estejam envolvidos com drogas serem taxados de vários adjetivos negativos, serem olhados com indiferença por grande parte da sociedade. É também muito comum familiar destes (dependentes químicos) serem responsabilizados como se fossem culpados por seus filhos terem contraído a doença da dependência química e assim, serem também excluídos de seus meios sociais. É comum a sociedade afastar de envolvidos com drogas, como se a dependência fosse uma doença contagiosa e a simples amizade, o contato já significasse um contagio. Este afastamento não atinge tão somente o usuário, mas também sua família. É comum dependência química ser sinônimo de bandidagem, delinqüência, vagabundisse e vários outros pejorativos. É comum o famoso jargão que é atribuído ao dependente químico “litro que vai querosene não sai mais o cheiro”.
Com todo esse pano de fundo fica muito fácil os planos de saúde encontrarem respaldo até mesmo junto ao judiciário para não custearem os tratamentos dos portadores de transtornos psiquiátricos. A ignorância da população em relação aos seus direitos é a maior aliada do poder público e a maior inimiga dos pacientes e da sociedade. Sobre esse manto deita em berço esplêndido o maior Tribunal de Justiça de Brasil, localizado no Estado de São Paulo e que alimenta a crueldade dos planos de saúde em não assumir a responsabilidade sobre o tratamento desses portadores de transtornos psiquiátricos oriundos de algum tipo de dependência, seja química, farmacológica, álcool ou cigarro. A diferença entre essas drogas é que umas são socialmente aceitas e outras são marginalizadas mais o padrão de comportamento do usuário é o mesmo.
A psicologia afirma que quando somos demasiadamente rotulados o inconsciente acaba assumindo tais estigmas e isto se confirma no caso da dependência química, pois varias vezes conversando com dependentes se consideram uns lixos e nos questionam; porque perder tempo com eles se não valem nada, muitas vezes duvidando até mesmo de nossa ajuda.
A maioria das famílias adoece emocionalmente por se culparem pela doença de seus filhos, atingindo estágios elevados de coodependencia devido a fatores externos que são os estigmas e o preconceito da sociedade. Então, fica uma reflexão: como se expor e buscar ajuda ou tratamento com todo este preconceito, rótulos e estigmas existente em torno da dependência química? Portanto, não é somente o ente dependente que provoca uma coodependencia na família, mas de uma maneira geral a sociedade também tem sua co-responsabilidade.
Além disso, essas famílias também adoecem financeiramente. A questão financeira é uma das grandes dificuldades seja da família, seja das entidades de tratamentos, pois na verdade, sem uma política pública ou privada real e efetiva no que tange ao tratamento para portadores de dependência química e seus familiares anulam-se as etapas superadas daqueles que desejam tratar-se. Nada adianta assumir a doença se não encontra tratamento adequado pela falta de dinheiro das entidades, ou desqualificação dessa patologia por parte dos planos de saúde negando o acesso ao tratamento.
Os novos modelos de tratamento a dependentes químicos, seu custo torna muito elevado financeiramente, por exige vários profissionais da área de saúde em diversas especializações. É necessária uma equipe multi e interdisciplinar envolvendo profissionais da área da saúde e da educação. Também nos casos de internações há toda uma norma exigida pela Vigilância Sanitária (ANVISA) que requer uma estrutura nas entidades que necessitam de um volume de recursos alto para seu funcionamento. Sendo assim, somente as famílias de alto poder aquisitivo acabam tendo um tratamento de qualidade, deixando fora dele à grande maioria da sociedade. Um portador de doenças psiquiátricas não pode ser subtemido ao um tratamento em hospital convencional com paciente de diferentes patologias. A dependência química tem suas características especificas que impede a pessoa de procurar ajuda, no entanto, com estes fatores externos mencionados torna-se um complicador a mais na tomada de atitude para os familiares e o dependente tratar-se.
A falta de informação sobre a doença da dependência.
Como disse acima o preconceito, o estigma, os mitos colaboram em muito, para que não se busque informações sobre a dependência química. Sendo assim, a falta de informação e apoio psicológico é um fator fundamental para o aprofundamento seja da pessoa envolvida com drogas, seja do seu familiar.
Outro fator complicador está relacionado ao preconceito que existe em torno do dependente químico. Grande parte da sociedade tem conceito errado sobre dependência química, e isto os leva a não concederem decisões judiciais pautas na Lei 9.656/98 que rege os planos de saúde. Diferentemente do que vem ocorrendo, por exemplo, em Belo Horizonte onde os Magistrados já tem como pacificado em decisões que roboram que os planos de saúde devem custear o tratamento dessa doença. “Quem vai ajudar os pacientes, isto é, colaborar com entidade que cuida vagabundos?” “Quem deixará de conceder decisões judiciais que amparam o tratamento para portadores de câncer de pulmão, hepatite alcoólica? Conceder o direito de tratamento custeado por plano de saúde com drogados?” Enfim, está é ainda a mentalidade de grande parte da sociedade.
Há de se ressaltar que não estamos falando da criação ou indução de um mercado perigoso e milionário com esquema de fraudes e corrupção. E sim levantar a bandeira da dignidade, de um Brasil melhor a todos.
Autora:
*Adriana da Cunha Leocadio – Especialista em direito e saúde, Bacharel em Direito, Membro da Organização Mundial da Saúde (OMS).


