09/12/2010

Trombofilias são apontadas como causas para complicações na gravidez

Raras e pouco conhecidas, as trombofilias são uma das principais causas de abortos tardios sucessivos, que acontecem no segundo e no terceiro trimestres de gestação. Caracterizado pelo aumento da predisposição a tromboses (veja infografia), esse grupo de doenças dificulta o bom funcionamento da placenta, o que traz riscos para o feto. Mulheres com o problema também precisam tomar cuidados extras para diminuir as chances de entupimentos de vasos sanguíneos — que podem causar infarto, embolia pulmonar e acidente vascular cerebral (AVC) — durante a gravidez e as primeiras semanas após o parto.

As trombofilias são compostas por um grupo de doenças, genéticas ou adquiridas (leia quadro) e podem atingir mulheres de qualquer idade, com ou sem filhos. Por conta da baixa incidência na população, só precisam de exames aquelas que tiveram trombose, passaram por um aborto tardio ou pelo menos dois precoces. A medida tem outra explicação. Ainda não se sabe exatamente a extensão da influência dessas doenças, principalmente as genéticas, nas chances de complicação. “É difícil dizer a frequência exata das trombofilias no Brasil, porque muitas pessoas têm e não são diagnosticadas. Esses problemas são ainda afetados por fatores externos e por outras doenças ocasionais”, diz o hematologista Sandro Pinheiro Melim.

Além disso, o tratamento, que consiste no uso profilático de anticoagulantes, traz efeitos colaterais e riscos de complicações graves. “O uso de anticoagulante pode levar a sangramentos e causar osteoporose. Além disso, o custo da medicação mais indicada, a heparina de baixo peso molecular, é muito alto”, enumera o vice-presidente da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Brasília, Alberto Zaconeta. Por isso é necessário ponderar os riscos da trombofilia e os do tratamento para desenhar a melhor estratégia para cada caso.

Para aumentar a eficácia do medicamento, sugere-se evitar ao máximo os fatores externos que elevem o risco de excesso de coagulação. Alimentação correta, não fumar, evitar situações de imobilidade e praticar atividades físicas auxiliam a controlar as chances de trombose.

Controvérsia
O avanço das pesquisas sobre trombofilias nos últimos anos tem criado um ambiente de controvérsia entre especialistas. Como os estudos são recentes, houve muitas descobertas que levaram a mudanças no tratamento e nos diagnósticos. “Há 15 anos, apenas 20% das tromboses causadas por trombofilia genética eram identificadas. Graças a pesquisas recentes, que descobriram novas trombofilias, atualmente 80% dos casos são diagnosticados”, explica o hematologista Alexandre Nonino.

Sabe-se, porém, que ainda existem tipos não descobertos. É o que se acredita no caso da dona de casa Kátia Khallouf Bayeh, 29 anos. Há sete anos, Kátia teve um descolamento de placenta no sétimo mês de gravidez, que levou à morte do bebê. Quarenta e cinco dias depois do parto, sofreu uma trombose na perna esquerda. Depois de muitos exames, não foi encontrada nenhuma trombofilia. Mesmo sem saber qual era o problema exato, o tratamento de anticoagulante foi indicado na segunda gravidez, cinco anos depois.

Apesar do tratamento, Kátia sofreu o mesmo tipo de descolamento logo no segundo mês de gestação — e uma trombose na perna algumas semanas depois. Com acompanhamento, o bebê nasceu prematuro e sobreviveu. As mesmas dificuldades também foram superadas na terceira gravidez, em que a caçula, hoje com 3 meses, também nasceu prematura. “Todas as vezes que fiquei grávida foram bastante traumáticas. As duas últimas, principalmente a terceira, lembravam a primeira vez. Graças aos médicos, à minha família e por conseguir o tratamento pelo SUS, deu tudo certo”, conta.

Outra questão em que as pesquisas ainda criam polêmica é o uso preventivo de anticoagulantes em mulheres com dificuldade de manter a gravidez. Segundo a ginecologista e vice-presidente da Região Centro-Oeste da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, Hitomi Muira Nakavaga, a medicação era indicada para todas as pacientes com abortos não explicados. “Tal tipo de uso, no entanto, tem sido criticado em pesquisas recentes por não aumentar as chances de evitar abortos em uma média que valesse os riscos do tratamento”, alerta.

Uma confusão comum, alertam especialistas, é pensar que as trombofilias causam infertilidade, o que não é comprovado. A dificuldade surge da incapacidade de manter a gravidez. Como muitos dos abortos podem acontecer no início da gestação, a mulher nem percebe que estava grávida. O consenso hoje é que a forma mais importante de prevenir é evitar fatores externos.

TROMBOFILIAS HEREDITÁRIAS

São alterações genéticas que causam desequilíbrio em algum dos fatores de coagulação. Além de raras, muitas vezes só causam trombose se associadas a outra situação de risco.

» Fator V Leiden

» Mutação do gene da protrombina

» Alteração da enzima MTFHR

» Deficiência da proteína S

» Deficiência da proteína C

» Deficiência da antitrombina 3

TROMBOFILIAS ADQUIRIDAS

São doenças e outras condições que aparecem em algum momento da vida e aumentam as chances de trombose. Entre elas, a mais frequente e importante é a síndrome do anticorpo antifosfolipídeo, porque aumenta sensivelmente as chances de trombose e de abortos sucessivos.

» Síndrome do anticorpo antofosfolipídeo (Saaf)

» Neoplasias (câncer)

» Gravidez e pós-parto

» Síndrome nefrótica (renal)

» Algumas doenças hepáticas

» Idade

» Doença varicosa (varizes)

» Obesidade

FATORES DE RISCO

Há condições externas que aumentam as chances de trombose. Combinadas com trombofilias, podem aumentar para até 60% as chances de o indivíduo sofrer uma trombose.

» Fumo

» Uso de hormônios femininos

» Longos períodos de imobilização

» Voos de média e longa duração (mais de quatro horas)

» Cirurgias

 

Fonte: correiobraziliense

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