Tenho observado tanto no consultório quanto fora dele casais que se separaram, e me chama a atenção como o a frase "sentia falta de ter um tempo para mim" é apontada como um fator de peso nessa decisão. Quando um casal se separa, o esperado da nova rotina é que os filhos se dividam entre ambos os pais, ficando um fim de semana com cada um, alternadamente. O pai que estiver livre pode programar-se da forma que lhe convier, com total liberdade para sair, rever amigos, dormir e acordar à hora que quiser, sem a responsabilidade de cuidar dos filhos e tudo que isto demanda, dedicando-se integralmente a si. Uma experiência totalmente nova e encarada como positiva, geralmente.
No período em que estiveram separados, uma coisa foi descoberta e muito valorizada por ambos: o tempo que cada um encontrou para si, para fazer suas coisas, quando não estava em função da família. Então, mesmo retomando o relacionamento, decidiram que cada um terá um final de semana por mês para ficar sozinho, deixando para o outro a responsabilidade pelos cuidados dos filhos.
Essa decisão, além
de garantir a cada um dos pais um tempo de total privacidade e
liberdade, tem a vantagem de proporcionar àquele que fica com os filhos
uma relação mais próxima, de cumplicidade, dando total atenção a eles,
já que não terão o outro pai para dividir a atenção. Como na grande
maioria das vezes são as mulheres que convivem mais com os filhos, em
função da guarda, isso aproxima bastante a relação deles com o pai, que
por ter a convivência mais intensa nesses dias e precisar dedicar-se a
eles integralmente, melhora sensivelmente a qualidade deste papel. E
isso é perceptível aos filhos que acabam desenvolvendo um vínculo maior e
melhor com o pai, muitas vezes antes ausente.
E assim, após um pequeno período onde aquele que saiu pôde
"recarregar suas energias" de alguma forma, volta para casa mais leve,
com maior disposição e melhor humor.
Não seria ótimo se conseguíssemos fazer isso? Então, por que ter
que esperar a separação para descobrir que você pode ter alguns
momentos só seus, sem necessariamente estar divorciado? Quando pergunto a
essas pessoas se o que elas escolhem fazer nesse período atrapalharia o casamento,
é unânime após um primeiro momento de reflexão a resposta: "Não, não
fiz nada que me comprometesse, apenas revi amigos que gosto, saí pra
dançar já que meu marido detesta fazer isso, dormi até a hora que deu
vontade sem ninguém pra me acordar, li tranquilamente o livro que estava
parado há tempos na cabeceira, dei uma escapada até a praia ou fui
andar no parque logo cedo..." e aí por diante.
Existindo a
confiança entre ambos esse tempo pode ser revigorante para a relação,
tanto do casal entre si, quanto de cada um com os filhos. Assim,
evita-se aquele velho problema de jogar no outro a frustração por não
fazer algo que se gosta, como por exemplo no caso das pessoas que adoram
dançar, mas o cônjuge decididamente não se dispõe a fazê-lo. Por que
não sair de vez em quando e matar a vontade com amigos? Ambos ficariam
bem mais leves: um por realizar algo que adora, e o outro por saber que
não precisa ficar preocupado por negar ao parceiro algo que lhe é tão
significativo e prazeroso.
E assim, garantindo cada um seu espaço individual, ambos podem
dedicar-se ao espaço da família com mais prazer e disposição.
É um mito pensarmos que a partir do momento em que casamos temos que
fazer tudo junto com o parceiro. Esse não é o ideal. Temos que garantir
o crescimento de ambos individualmente, e também conjuntamente. Apenas
quando nos permitirmos ser pessoas inteiras e felizes com nós mesmos
conseguiremos ser felizes com o outro.
Fonte: Minha Vida


