01/07/2011

Cientistas já sabem como HIV rompe barreira de proteção e invade o cérebro

Há 30 anos milhares de cientistas ao redor do mundo se debruçam sobre os mistérios do HIV na tentativa de entender como um microorganismo tão pequeno — menor que a maioria dos outros vírus, bactérias e outros patógenos — consegue ser o responsável por uma das maiores pandemias da história da sociedade moderna. Quase três décadas depois de ter sua estrutura desvendada, o vírus da síndrome da imunodeficiência adquirida continua a surpreender os cientistas. Um artigo publicado na edição de hoje do Journal of Neuroscience desvenda um dos mecanismos mais complexos no qual o vírus está envolvido: a invasão da barreira hematoencefálica.

A descoberta pode, no futuro, resultar em medicamentos que controlem o elevado índice de doenças neurológicas em soropositivos. A barreira hematoencefálica (BHE) é uma espécie de membrana que protege o sistema nervoso central — formado pelo cérebro e pela medula espinhal — das toxinas que circulam pela corrente sanguínea (veja arte). Ao contrário do que ocorre com a maioria das substâncias, vírus e bactérias, o HIV consegue romper essa barreira e atingir o cérebro por meio de um mecanismo que ainda não era conhecido ou explicado pelos cientistas.

De acordo com a nova pesquisa conduzida por especialistas da Escola de Medicina Albert Einstein, de Nova York, para conseguir tal feito o vírus não ataca a própria barreira, mas um conjunto de células chamadas astrócitos, que estão entre os responsáveis por reforçar a BHE. Em geral, apenas 5% das células desse tipo são contaminadas pelo HIV.

Em laboratório, os pesquisadores americanos construíram um modelo de barreira hematoencefálica com células humanas. A constatação foi que, embora apenas uma pequena parte delas fosse infectada, quando isso ocorre, as células que estão em volta morrem — o que provoca uma degradação da BHE. “Nossos resultados sugerem que a infecção pelo HIV de astrócitos pode ser importante no aparecimento da disfunção cognitiva em pessoas vivendo com a doença”, afirmou Eliseo Eugenin, principal autor do estudo, em comunicado à imprensa.

Efeito cascata
Apesar de os astrócitos infectados serem os responsáveis pela morte de várias células sadias, eles próprios permanecem vivos, propagando o efeito deletério por mais células. “Esse estudo fornece uma explicação do porquê de poucos astrócitos infectados poderem desencadear uma cascata de sinais que abrem o cérebro a várias substâncias tóxicas”, completa o pesquisador, que também utilizou experimentos em chimpanzés contaminados por HIV.

Enrique Argañaraz, do Laboratório de Virologia Molecular da Universidade de Brasília (UnB), explica que problemas como a demência são comuns em pacientes com HIV justamente pela invasão do sistema nervoso central. “A incidência de demência associada à Aids ocorre entre 40% e 60% dos pacientes infectados, mesmo que estejam sob tratamento”, analisa o pesquisador.

Para ele, embora ainda exista um longo caminho a ser percorrido antes que um tratamento eficaz seja desenvolvido, a pesquisa é um importante passo rumo a um medicamento que trate a demência em soropositivos. “Certamente que a elucidação destes mecanismos é muito importante no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas que visem minimizar os efeitos da infecção no sistema nervoso central”, completa o pesquisador norte-americano.

O diretor adjunto do departamento de DST/Aids do Estado de São Paulo, Artur Kalichman, afirma que esse tipo de pesquisa — além de ajudar a se conhecer melhor o vírus — pode, no futuro, auxiliar no desenvolvimento de técnicas para tratamentos de problemas neurológicos em pacientes com HIV. “Um dos problemas para o tratamento de doenças do Sistema Nervoso Central em pacientes com Aids é que a maioria dos medicamentos retrovirais, que deveriam combater o vírus, não conseguem penetrar na barreira hematoencefálica e acabar com o vírus que está no sistema nervoso ”, afirma o médico.

Para Kalichman, o achado vai reabrir a discussão sobre o retorno do uso do AZT em massa. “Ao contrário das outras drogas, o AZT consegue penetrar a barreira hematoencefálica e combater o vírus dentro do sistema nervoso. Talvez ele possa voltar a ser utilizado na tentativa de barrar doenças neurológicas”, completa. O azidotimidina, como também é chamado o medicamento, foi uma das primeiras gerações de medicamentos antiaids a conseguir barrar o avanço da doença.

Utilizado amplamente a partir de 1990, ao longo dos anos a droga foi perdendo espaço em função do desenvolvimento de outros medicamentos, mais eficazes e com menos efeitos colaterais. Para ele, o trabalho alerta para um problema que ainda é pouco divulgado e conhecido pela maioria das pessoas: as consequências neurológicas do HIV. “Acredito que uma pesquisa como essa pode alertar sobre a necessidade de se ministrar tratamentos contra demência e outros males neurológicos em pacientes com o problema”, conta Kalichman. “Isso poderia minimizar os sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes”, completa o médico.



Fonte: Correio Braziliense

TAGS: HIV

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