Os anestésicos são uma categoria especial de medicamentos usados para promover a insensibilidade à dor, principalmente nos procedimentos cirúrgicos – dos mais complexos aos mais simples. Os anestésicos gerais devem ser administrados nos centros cirúrgicos e provocam a perda total da consciência do paciente. “Já os locais podem também ser usados no tratamento de alguns estados de dor crônica, servindo tanto para o diagnóstico diferencial como para o tratamento”, explica o anestesiologista Valberto Cavalcante, do Centro da Dor do Hospital 9 de Julho.
A principal função da anestesia nestes casos, explica Cavalcante, é interromper o círculo vicioso que realimenta a dor crônica. “As dores intensas são muitas vezes o motivo principal que impede o paciente de fazer a fisioterapia”, diz. “O médico anestesiologista faz a anestesia e imediatamente o fisioterapeuta executa os exercícios físicos que vão promover a melhora do quadro doloroso”.
As doenças que podem causar a dor crônica são aquelas que provocam disfunção ou lesão do sistema nervoso, as neuropatias decorrentes de procedimentos operatórios (cirurgias da coluna cervical e lombar, por exemplo), as síndromes actínicas (pós-radioterapia) e as neuropatias decorrentes do tratamento quimioterápico e com drogas imunossupressoras. “Lesões inflamatórias crônicas, as síndromes dolorosas miofasciais (dor muscular), as cefaleias (dor de cabeça), a doença oncológica e a fibromialgia também se encontram entre as síndromes dolorosas crônicas mais comuns”, diz o neurocirurgião funcional especialista em dor Claudio Corrêa, coordenador do Centro de Dor do hospital.
“Pacientes com câncer, com dores lancinantes de caráter agudo e crônico se beneficiam extremamente com o uso de anestésicos locais administrados para aliviar suas dores”, completa Valberto.
Como funciona a anestesia local
Como o próprio nome diz, os anestésicos locais são usados para anestesiar apenas uma parte do corpo (quando se quer suturar uma ferida, por exemplo). Eles funcionam bloqueando a passagem do estímulo doloroso através dos nervos. “Ou seja, o estímulo existe, mas não chega ao cérebro e, portanto, não é processado”, diz Cavalcante.
No entanto, para que exerça os seus efeitos, é necessário que seja administrado próximo ao trajeto dos nervos ou que seja infiltrado no local que se quer anestesiar. “O tempo de seu efeito é variável, podendo durar de alguns minutos até várias horas, dependendo da técnica e do tipo de anestésico utilizado”.
Uso não oferece risco ao paciente, desde que seja feito com critério
Graças à popularização do uso dos anestésicos no tratamento de doenças que provocam dores crônicas, os processos envolvidos já são bem conhecidos, o que reduz o risco de complicações. No entanto, o anestesiologista lembra que todo procedimento médico tem um risco inerente à técnica e, por isso, o tratamento deve ser feito preferencialmente em ambiente hospitalar ou clínica especializada, sempre por profissionais capacitados. “O ambiente hospitalar e o acompanhamento adequado antes e depois dos procedimentos permitem que se ofereça ao paciente um alto nível de segurança e efetividade nos tratamentos”, diz.
Neste sentido, os impactos ao paciente estão mais relacionados à mobilidade, uma vez que ele terá de comparecer aos locais de tratamento vários dias na semana. “Por esse motivo, sempre que há indicação para o uso de anestésicos no tratamento da dor crônica, o médico deve levar em consideração esses fatores e que irão interferir no dia a dia”.
Em contrapartida, Claudio ressalta que na grande maioria dos quadros dolorosos crônicos não está indicado o uso regular de anestésicos. “Os tratamentos das síndromes dolorosas crônicas envolvem tratamento farmacológico por via oral, incluindo antidepressivos, neurolépticos, miorrelaxantes, anti-inflamatórios, opiáceos e anticonvulsivantes. Apenas quando necessário, o uso de anestésicos pode fazer parte do arsenal terapêutico destas síndromes”, finaliza.
Fonte: O que eu tenho?


